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  • Carolina Mancini

Vicissitude


Quando o café, posto na xícara, aguardava para ser saboreado deixando seu perfume no ar, Manoela ainda não tinha certeza.

Quando a janela do quinto andar deixou entrar o ar e vestígios da poluição, assim como os primeiros raios de sol, ela ainda não havia resolvido.

A cama parcialmente desarrumada pelo amontoado de vestidos de tons solenes, profundos, enviesados na melancolia, era o sinônimo de sua busca dolorida.

O espelho refletia a parede vazia, onde antes repousavam os prêmios de melhor funcionária, lembranças de pessoas que foram amadas, a meta da dieta, a tabela de menstruação, os gastos do último mês.

A louça não foi lavada, o chão não foi varrido. Nem mesmo o wi-fi foi conectado naquele dia.

Manoela não apareceu no trabalho, não ligou e nem poderia atender nenhuma ligação. Naquele dia, celular, documentos e dinheiro ficaram sobre a mesa, junto com a nota-fiscal com o valor e a data (já fazia mais de um mês) da compra de uma corda.

Manoela ensaiava aquela decisão.

Quando o café acabou e a xícara quase vazia repousou na mesa - escorrendo da borda ao centro profundo e pálido a última gota -, ela soube que não podia mais adiar.

Ela abandonou-se.

Dizem que Manoela desistiu, que foi fraca, que deveria ter insistido mais. Outros acreditam que tivesse um problema psicológico grave.

A única certeza, é que depois daquela manhã, ela havia deixado de ser o que se sabia, para ser quem desejava ser, quando ainda era menina.

Manoela voltara a pular corda, e a cada volta, voltava a entender, como recomeçar e o que deveria deixar de ser presente, e ficar no passado.

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