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  • Carolina Mancini

Sala de estar




Eis que acordo e encaro a vida:

Longa?

Frágil…

Inebriada de medos, vontades e quereres dispersos,

me incomoda a urgência e também me incomoda a espera.

Estou hoje entre dois mundos.

Entre quereres e insuportáveis maneiras de teimar.


Sou eu.

Me encaro e sou eu.

Tão louca e destemida quanto impossível de alcançar.

Na vassoura, sou a bruxa que inventei ainda criança.

E em dança, me permito em sonho dançar. Mas não danço. Pés amarrados pela maturidade dos anos...


Não posso voar.


Não posso?

Mas vou. Ensaio. Espero.

Em desespero erro, esqueço. Arrependo-me por esquecer.


Não há nada mais para mim, ainda que exista infindáveis maneiras de ser.


Presa às correntes invisíveis, me sento de frente à porta e à janela, na sala-cela que criei para mim. Não vou. Não me levanto, ainda que ensaie andar.

Me perco.

Dentro de mim me perco para além de tudo que sou. Almejo Pessoa. Sempre. Na falta de palavras, uso todas.

Quem sou?

Onde estou?

Aqui e em lugar nenhum.

Me sinto e sento-me visita em meu próprio corpo.

Visita em meu próprio sonho e vida.


Odeio grosseiramente a incapacidade de escolher. Esvaziada de sentidos, não concluo as frases… Termino-as antes de suas rimas. São tão frágeis: sapatinhos de princesa. Não olhei, não reguei. Morreram.


Morreram as flores, as palavras e as ideias.


Outras vãs sentam ao meu lado, em minhas costas e ombros e me pesam pesares de ser. Meus pensamentos me sufocam. A vida cala. Encerra uma energia que deveria explodir.


Corrói.

Ideias corroem.

Castigam.

Não as escuto.

Tampo os ouvidos.

Ecoam por dentro.

Farpas explodem.

Ouvidos sangram.


Jamais amei ao ponto de exclamar-me: Esta sou eu, vida! Eu que lhe devoro!


Nunca fui?

Talvez…

Talvez eu tivesse sido assim.


Cansei

de medos.

Queria voar: folha ao vento; onda na maré; nuvem quieta.


À porta eu me espero. Uso um chapéu coco que me cobre o rosto.

Uso terno e bengala em uma versão misteriosa de mim, onde reconheço os cabelos soltos. Rosto coberto.

Cansada de esperar-me balaço a cabeça negativamente.

Mas continuo

esperando.


Me encaro na cadeira. Estática? Quase. A respiração sobe e desce o peito.

Me encaro à porta. Estática? Quase. Pés tremem…

Lá fora, para além da porta e do eu que me espera, está o jardim à la Magritte.

Colorido e irreal. Onde pássaros cor de céu com nuvens voam e piam no sol à pino.

O verde cega. O sol cega. Não vou.


Não vou?

A sala-cela me oprime. Ela me espreme e se torna vagarosamente diminuta.

Não, ainda caibo.

Mas sei:

fica menor a cada dia.




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