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  • Carolina Mancini

Padaria

Eu tenho esperançado muito. Não sobre revoluções e utopias (não mais), mas tenho esperançado sobre sementes e flores. Também tenho me decepcionado muito e vejo morrer folhas esmagadas por botas: indesejáveis, perdidas, famintas de morte. E ainda que doa, todos os dias, eu tenho esperançado.





Ainda que eu chore... Ainda que a insônia, amiga da fantasia e inimiga da mente, me castigue entre a noite e a madrugada, eu tenho esperançado.


Olho pela janela do ônibus, e quando não vejo nada além do que não queria ver, olho para janelas de olhares. As ações me dizem mais que palavras ainda que a sina da palavra seja a verdadeira dona de mim.


Esperanças para um milhão de mundos. Mundos que vivem nas janelas dos olhos, para além ou para dentro das janelas das casas.

A padaria da esquina e mais milhares de padarias de esquina servem cafés que estavam frescos antes das seis da manhã.

Para os que tiveram insônia como eu a padaria é nada se não um sonho onde se pode respirar.


É a pausa do sistema, a padaria.

Já não há padarias como antigamente. Nada é como antigamente. Eu mesma tomo o café em casa, que às vezes é pausa mas na maioria é preparação. Estamos sempre nos preparando. O futuro sempre mais perto do que deveria...

Os dias correm. As tardes correm. A noite é ofuscada sob o brilho da televisão.

Livros vão se empoeirando nas estantes e nos criados mudos. Pacotes em caixas. Histórias em caixas. E eu esperanço que poderei lê-los em algum quando em breve. Talvez daí as decepções: coloco tudo no futuro. Coloco futuro em tudo...


E talvez eu coloque tudo no futuro pois o presente pesa em demasia.

Palmas para quem inventou o calendário ou a ideia de que os dias devem ser apenas preenchidos. E contados. Sistematizando os encontros e adiando o tempo do café.

Eu já não aguento e nem deveria! Tirem os relógios da parede! Eu quero respirar.


Atirei flechas lá atrás. As encontro aqui no agora. Foras ou no alvo. Alvos mudaram. Mudamos. Sempre.


Padarias não são mais como antigamente. As cafeterias embelezaram os cafés gourmet e se já não há tempo para esperançar pelas manhãs, talvez tardes de contemplação sirvam-nos agora.

Espero? Não!

Esperançar é verbo e ação ainda que nos doa.

Ainda.

Procuro a padaria, o café, qualquer coisa que o valha.

Semelhante agitação me encontra.

Respiro. Mudamos sempre.


(desaguo em homenagem a Pessoa)

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