Buscar
  • Carolina Mancini

Duas batidas de insurgência

Duas batidas na porta. ES-PA-ÇA-DAS.

O incomodo por ter sido tão devagar e pela falta de continuação. Quem dá duas batidas na porta?

O comum é cinco. Contara. A maioria dá cinco batidas rápidas. Assim: TocTocTocTocToc.

Outras, as pessoas mais tranquilas e educadas, batem quatro vezes, com leves intervalos, cada um de meia duração do “toc”. Mas assim? Duas espaçadas? Era impossível ignorar o incomodo. Teria gritado dali “Cadê a terceira batida que esse ritmo pede? ”. Teria gritado, se a força da voz não fosse ainda menor que das pernas.


Ergueu-se do lastimável estado quase inanimado do sofá. Dentro do peito a raiva pela repetição inadequada daquela batida. Infeliz. Fizera de propósito ou ser um impropério era seu normal?

Levou a mão velha e rígida até o porta chaves e tremulamente chacoalhou as tantas entre os dedos até localizar a que mais lhe era válida agora. Enfiou com pouquíssima destreza na fechadura, e ali, girou duas vezes, antes de levar a mesma mão enrugada até a maçaneta.

À sua frente, de sobrancelha arqueada de modo sarcástico, e claro, o sorriso puxado de lado, ela lhe olhava.

“Cretina!”, gritou o velho de voz fraca. “Me abandonou. Me abandonou.”, berrou ainda mais, porém junto à tosse e à tremedeira, não se impunha tanto quanto desejava. “Como ousou voltar?”.

Ela, a dama, não respondeu. Apenas entrou. Estava tão madura quanto o velho de cabelos brancos e rugas que só deixavam seu rosto mais bonito. Nos pés, nada de salto, apenas a sapatilha confortável. Sentou-se no sofá e encarou o contragosto do anfitrião, como quem espera, obviamente, que lhe tragam pelo menos uma xícara de café.

Ele, o rígido e intolerante senhor, fechou a porta, mas esqueceu-se de trancar, pois passava seu olhar para a senhora ali, que de maneira sabia e ousada, dera as duas malditas batidas na porta. Não terminou o cadenciar, não fechou a melodia, para que ele se movesse.

Sabia o que ela queria ali.

E se negaria até o final.

Olhou a por um tempo impossível de contar no relógio.

Sabia sim, o que ela queria ali.

Mas será que deveria ceder?

Olhou para suas mãos,

 para seus pés naquele chinelo de pano velho,

e depois para a elegância simples e sensata da dama.

Sabia o que ela queria

A conhecia muito bem.

De muitos anos atrás.

Ele levantou-se, rangendo os dentes no resmungo cada vez menos e sentou-se ao piano empoeirado. Fechou os olhos. No início foi difícil, os dedos doíam. Mas disfarçadamente via a dama a encorajá-lo, dançando sua melodia com um meneio leve de cabeça.

Assim foi. Nota atrás de nota, e então a escrita trêmula na partitura. E voltava o trecho, e reescrevia, e nota atrás de nota, até que o dia lá fora virou noite.

Terminada a tarefa, o velho músico sentindo-se grato e confuso sentou-se ao lado da dama e com cuidado para não afastá-la tocou-lhe a face como se esperasse lhe beijar:

– Como pôde deixar de me visitar, senhora? – E lhe escapou uma lágrima.

Ela, sorrindo, lhe devolveu:

– Você, meu senhor, foi quem parou de abrir a porta.

E antes que seu beijo se consumasse, ela tornou estrelas facetadas e translúcidas, sumindo no ar na poeira brilhante que uma brisa inapropriada soprou.

O choro já não foi mais contido, porém, ele levantou-se, ainda sentindo as dores da idade avançada, mas feliz. E enquanto seguiu para a cozinha a fim de preparar seu café e superar as lágrimas de uma mágoa antiga, dançava em pequenos embalos, cantarolando sua nova melodia.

E do lado de fora, na calçada, as crianças se perguntavam o que havia com o velho ranzinza, que trocara os gritos e resmungos, pelo piano.


7 visualizações